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No último domingo, 13, a cantora Anitta surpreendeu a todos com um discurso empoderador durante sua apresentação no festival Villa Mix, no Rio. A intérprete de “Bang” e “Sim Ou Não“, provavelmente dois dos maiores hits do último ano, mandou um recado para quem a destrata tanto por ser funkeira quanto por ser mulher:

Uma vez eu peguei um cara que falou assim para mim: ‘Se tu fosse minha mulher, a primeira coisa que ia mudar é esse rebolado aí na frente dos outros.’ Aí eu falei, ‘entendi, para me pegar é legal, para ser tua mulher não dá’. Hipocrisia é que não dá, sabe por que? Eu prefiro ficar sozinha do que ser subordinada. […] Para essas pessoas que acham que só porque a gente faz funk que a gente é menor, eu tenho uma coisa pra falar: ‘vocês pensaram mesmo que eu não ia rebolar minha bunda hoje?’.

Um discurso bem diferente de alguns anos atrás, quando discutiu com a cantora Pitty em uma gravação do programa “Altas Horas“. Na ocasião, o apresentador Serginho Groisman recebeu convidadas mulheres em uma plateia formada só por homens. É claro que em um programa formado apenas por convidadas mulheres, o feminismo e a luta pela livre manifestação da mulher seriam assuntos fortemente debatidos. Ao falarem sobre o feminismo, a carioca não foi feliz ao comentar que as mulheres estavam “tomando” o lugar dos homens. Para piorar a situação, foi mais além, e no que diz respeito à liberdade sexual feminina, disse que a mulher que não se respeita, dá margem para o homem achar coisa X ou Y sobre ela.

Sabemos que uma pessoa não entende nada sobre o movimento feminista quando usa o argumento de que as mulheres estão querendo tomar o lugar dos homens. Isso é uma visão distorcida de alguém que não buscou mais informações sobre o assunto. O que as feministas desejam (e os que apoiam o movimento, mas não tem protagonismo de fala, ou seja, eu, como homem, que utilizo esse espaço para debater o tema), é que todos tenham direitos iguais, como a própria Pitty rebateu no momento da discussão. É o fim da dominação de um gênero sobre outro. Mas por enquanto, sabemos que isso ainda está bem longe de ser possível. E enquanto esse momento tão sonhado não chega, as mulheres precisam ser vistas, ouvidas, e o movimento precisa ser debatido.

Quando falamos sobre liberdade sexual feminina, muitas pessoas não costumam entender. Como assim liberdade sexual feminina? As mulheres não são livres? É difícil acreditar, mas uma grande parcela da sociedade ainda não aceita o fato das mulheres se manifestarem livremente. Seja sexualmente ou para expor seus valores. Você provavelmente já ouviu falar da teoria de que mulheres que usam roupas curtas e justas têm culpa de ser estuprada, não é? Uma roupa realmente vai determinar o caráter de alguém e ser um “convite” a um absurdo como o estupro? Dançar em cima de um palco usando short curto não significa que a mulher está querendo fazer sexo. Ela está apenas sendo livre, valorizando seu corpo, sendo sensual. Qual o problema nisso?

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Anitta, a outra Anitta de 2014 que brigou com a Pitty, ao disseminar a ideia de que uma mulher precisa se valorizar para que um homem a aceite, acaba fortalecendo esse pensamento retrógrado de que a mulher precisa ser recatada e reprimir seus desejos, seja lá quais forem.

A atual Anitta, que fala sobre não aceitar ser subordinada e que não é menor por fazer funk, já não acredita que uma mulher precisa buscar aprovação de um homem. É nesse ponto que falo sobre desconstrução. Desconstrução de estereótipos que cercam os gêneros. O pensamento desconstruído de Anitta agora acredita que uma mulher não tenha que dar satisfações a um homem, por simplesmente não existir uma superioridade entre os gêneros. Somos livres para sermos e fazermos o que quisermos.

Desconstruir o pensamento machista é uma atividade que devemos fazer diariamente. “Mas eu não sou machista!!!!” Você pode até achar que não seja machista (e aqui falo com todos, independentemente de gênero ou orientação sexual), mas não é difícil repetirmos atitudes e pensamentos machistas, já que estamos reproduzindo uma regra que a sociedade tem como norma social. E o que seria uma “normal social”? É simples: nada mais que uma regra socialmente reforçada, que pode afetar o comportamento humano de determinada sociedade. A Anitta, lá em 2014, pode nem ter percebido que estava apenas repetindo uma norma que ouviu durante tantos anos, por tantas pessoas. O quanto que ela não foi xingada por trabalhar fazendo funk? E para nós (isso eu também incluo a Anitta) desconstruirmos essa regra, precisamos prestar mais atenção e não repetir o machismo. A Anitta fez isso e agora está muito mais empoderada. E jamais subordinada!

Nós aprendemos todos os dias. Seja com a Anitta ou com alguém do nosso lado – em casa, na rua, no trabalho ou na faculdade. Todos os dias aprendemos a desconstruir. E essa desconstrução não acontece da noite para o dia. Vai levar um tempo, mas é necessária. E como é! Viva o mundo igualitário.

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Alicia Keys é uma cantora indescritível. Seu talento é reconhecido pelos grandes nomes da música, assim como pela crítica e claro, pelo grande público. É inegável o poder de sua voz. E o quanto ela capricha em seus trabalhos. Mas não é sobre sua música que quero falar hoje. Mas sim sobre suas sardas. Você deve se perguntar: mas que sardas? É, eu pelo menos não sabia que a cantora ostentava lindas sardas em seu rosto. Talvez pela maquiagem pesada ou pelos efeitos da manipulação de imagem. O fato é que o mundo agora conhece suas sardas.

Mas, tá, qual é a importância disso tudo? Posso dizer que é mais um passo para o fim, ou melhor, extermínio (para ser mais forte e preciso) da ditadura da beleza!

Vou explicar: ela não vai mais usar maquiagem, pois quer se sentir livre, sem sofrer pressão por parte de ninguém. Seu empresário vai achar ruim? Paciência! As revistas de beleza não vão aceitar muito bem? Fazer o que, né? O importante é que a Alicia agora se sente empoderada, dona do seu próprio corpo, e claro, das suas sardas. Para divulgar a novidade, ela é capa da revista “Fault” e de cara limpa. Isso não é fantástico? E não foi só isso: para o site Lenny Letter, da igualmente feminista Lena Dunham, escreveu uma carta aberta e explicou porque tomou essa iniciativa.

Todos chegamos em um momento de nossas vidas (especialmente as garotas) onde tentamos ser perfeitos“, comenta a cantora. “Escrevi uma lista de coisas que eu estava cansada. E uma delas foi o quanto as mulheres sofrem lavagem cerebral para ser magra, ou sensual, ou desejável, ou perfeita. Uma das muitas coisas que eu estava cansada era do constante julgamento das mulheres. O constante estereótipo que nos faz sentir que o tamanho normal, não é normal, e Deus nos livre se você for plus size”, desabafa.

Uau! Isso é muito forte, não é?

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Quando falamos de atingir a perfeição estamos nos referindo aos padrões impostos pela sociedade há várias décadas. Se você não segue esse padrão, você está fora da caixa e não tem aceitação social. Permanecer dentro de uma caixa significa perder a liberdade de vestir o que achar bonito, de se comportar da maneira que achar viável e, além de tudo isso, cuidar da aparência do jeito que se sentir bem. Esses padrões estéticos que são estipulados por diversos meios, pode causar consequências sérias na autoestima de uma mulher.

Mas agora eu pergunto: por que não experimentar sair da caixa e viver do jeito que você quiser? Foi essa a decisão de Alicia, que resolveu mostrar ao mundo seu rosto livre de maquiagem e manipulações digitais. E por que isso foi tão importante? Porque a cantora é um nome mundialmente conhecido. Ela está nas capas de revistas e estourando nas paradas mundo afora. Ela, como personalidade da mídia, pode influenciar várias mulheres manipuladas por esse mesmo padrão ditatorial a viverem suas vidas do jeito que quiser. O mais importante é ser fiel aos seus próprios sentimentos.

Afinal, se ela pode, por que você não? Como Alicia já disse uma vez em sua música “Superwoman”:

Por todas as mães que lutam, por dias melhores que virão. Por todas as mulheres sentadas aqui agora que tem que voltar para casa antes do sol se por. Para todas as minhas irmãs. Cantando juntas dizendo: Sim eu vou, sim eu posso.

Obrigado por sua luta, Alicia. O mundo precisa de mais pessoas como você. Nos vemos nos charts, porque agora queremos novos singles.