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Escrever sobre as obras de Darren Aronofsky não é uma tarefa fácil até para os profissionais mais experientes da sétima arte. Isso porque o diretor imprime um estilo de narrativa único em todos os seus trabalhos, conversando diretamente com o surrealismo, sem esquecer a ousadia, um trunfo permitido aos mais irreverentes do cinema. As histórias são representadas através de gestos, expressões faciais e movimentos, que ajudam a complementar o seu trabalho.

Quem já assistiu a algum de seus filmes, sabe que vale a máxima do efeito “ame ou odeie”, mas independente de gostar ou não, é impossível ficar indiferente ao que é visto em cena. E foi exatamente assim que me senti após assistir ao seu novo projeto, “Mãe!“, que estreia nesta quinta-feira, 21 de setembro, nos cinemas.

A trama acompanha intimamente a relação de um casal que vive isolado aproveitando os bons momentos da vida. A jovem, interpretada por Jennifer Lawrence, ocupa seus dias reconstruindo a casa do poeta amado, vivido por Javier Bardem, que fora destruída em um incêndio. Tudo muda com a chegada de um misterioso homem (Ed Harris), que prontamente é acolhido pelo dono da casa. A partir de então, uma série de acontecimentos, muitos deles perturbadores, mudam a rotina do casal, nos levando a uma experiência psicológica como há muito tempo não víamos nas telas do cinema.

A sinopse descrita acima certamente não revela a real intenção desta trama idealizada por Darren. A experiência de “Mãe!” está no simples fato de assistir e interpretar as representações criadas em cena. Descobrir o que há escondido por trás de cada metáfora acaba tornando-se uma interação entre Darren, do seu alto comando, e o público, que precisa extrair o máximo possível de cada cena. É uma experiência individual, que cabe às sensações de cada pessoa. Sendo assim, tudo que eu disser aqui ainda não é o bastante para descrever a produção, cabendo a você vivenciar esse momento na sala do cinema.

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A história é contada, literalmente, do alto do ombro da protagonista vivida por Jennifer Lawrence. A câmera, como você pode ver acima, é anexada sob os ombros da atriz e assim, a trama é desenvolvida exatamente do ponto de vista da mulher, que também é esposa e mãe. Sua subjetividade é escancarada ao público, nos fazendo sentir seus medos e suas angústias ao deparar-se com o inesperado em um lugar sagrado, como a sua casa. Nesta imersão à subjetividade da protagonista, o diretor se aproveita dos simbolismos para tratar de alguns fardos de ser mulher em uma sociedade predominantemente machista. Em uma das cenas, é perturbador quando percebemos o quanto é difícil ela ser ouvida pelos demais. Em certo momento, ninguém a leva a sério e duvidam de suas palavras.

E por falar na grande protagonista, não há como analisar “Mãe!” sem dar os devidos créditos ao excelente trabalho de Jennifer Lawrence. A atriz contracena com grandes nomes do cinema, como Javier Bardem e Michelle Pfiffer, mas experiente do jeito que é, toma de conta da produção. Ela vai do céu ao inferno em poucos minutos e consegue convencer o público de qualquer coisa que seja, mesmo que sua personagem não seja um livro aberto diante da narrativa. Um trabalho primoroso, que a consagra de uma vez por todas, como um dos maiores nomes da sétima arte. Por falar nisso, assista a um depoimento da atriz sobre as filmagens do longa:

Quando o filme se desenrola para o último ato, percebemos a ousadia da narrativa de Darren Aronofsky de forma mais aguçada. Ele leva sua trama ao limite, conduzindo os atores de forma ainda mais teatral, nos entregando um pouco de sua personalidade megalomaníaca, que pode ser visto, inclusive, nas cenas violentas que também marcam esta narrativa.

Quem acompanha sua carreira sabe o quanto ele trabalha com temas religiosos em suas metáforas, e aqui não é diferente. Não há como entregar mais detalhes da trama sem revelar alguns spoilers. Dessa forma, não posso me prolongar para não estragar a sua experiência. Mas esteja preparado para descobrir outro lado de atores tão consagrados de Hollywood.

Mãe!” pode ser considerado controverso, ousado e muitos podem não comprar a ideia, mas não há como negar que seja uma obra diferente de tudo que está sendo feito nos dias atuais. É um filme para debater na mesa de bar com os amigos. Para ser lembrados na premiações. Para aguçar discussões mais calorosas sobre a sétima arte. É um filme memorável, que, você gostando ou não, vai ficar na sua cabeça e na sua língua por muito tempo.

Antes de ir embora, assista ao trailer de “Mãe!”:

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No início dos anos 40, os quadrinhos eram protagonizados por personagens masculinos e não havia representatividade feminina nas histórias que chegavam às casas dos leitores. O Superman, o maior de todos os super-heróis, foi por muitos anos a figura mais lembrada entre jovens e adultos. Mas em quem jovens meninas poderiam se identificar no meio de tantas personagens homens e caricatos?

Durante as décadas de 30 e 40, as mulheres conquistaram novos direitos, entre eles, o direito do voto e a participação no mercado de trabalho, contribuindo, assim, para o enfraquecimento da ideologia de hierarquização dos papéis sexuais. Foi nesse período então que a Mulher-Maravilha fez sua primeira aparição na revista “All Star Comics Nº 8”, lançada em dezembro de 1941 pela All-American Publications (DC Comics), nos Estados Unidos.

O criador, William Moulton Marston, em uma entrevista ao jornal New York The Sun, caracterizou a super-heroína como uma “propaganda psicológica” para o tipo de mulher que ele acreditava que poderia governar o mundo. Para William, as mulheres eram mais honestas que os homens e por isso defendia seu crescimento na sociedade, tendo então a ideia de criar a personagem.

Impressionantes 76 anos depois, a personagem – que representou uma quebra de paradigmas para a história da Cultura Pop ao incluir nas HQs uma mulher como super-heroína – repetiu o mesmo feito nos cinemas ao estrelar seu primeiro filme em live-action.

Não que as mulheres não tenham conquistado direitos ao longo de tantas décadas. Pelo contrário, foram muitas conquistas. Mas, mesmo com o passar dos anos, a luta feminista está longe de chegar ao fim e a tão sonhada igualdade entre os gêneros ainda não existe. O empoderamento feminino ainda é quase um tabu e as produções de Hollywood ainda temem mulheres como protagonistas (o que é perceptível ao nos darmos conta que só agora, depois de 76 anos, a Mulher-Maravilha tenha um filme solo para chamar de seu).

E uma pergunta que todos estão se fazendo é: “Mulher-Maravilha” é um filme feminista? Sim, é um filme feminista! E esse é um dos motivos que fazem dessa produção tão importante para a história atual da Cultura Pop. Diana tem uma personalidade marcante e é livre para tomar suas próprias decisões. O roteiro também deixa bem claro sua intenção ao fazer questionamentos simples e pertinentes, como “Por que uma mulher não pode entrar no parlamento?”, ou “Por que uma secretária precisa fazer tudo para o seu chefe como se fosse uma escrava?”.

Neste ponto, temos um filme realmente empoderador, assim como a personagem.

Muitas pessoas estavam com um pé atrás em relação ao longa, principalmente por ele carregar nas costas a difícil missão de recuperar o prestígio e a fé no Universo DC dos cinemas. Mas a boa notícia é que ele conseguiu cumprir muito bem seu papel, dando esperança aos fãs de que dias melhores estão por vir – pelo menos para o time da Liga da Justiça, né?

Agora que contextualizei a história da Mulher-Maravilha e o quanto ela é importante para a atual fase da nossa sociedade, vamos falar sobre o filme e o seu impacto no cinema.

Cuidado, tem spoilers leves!

A diretora Patty Jenkins aceitou a difícil missão (sendo que ela já tinha se oferecido para dirigir o filme em 2003) de contar a história de origem da personagem, apresentando Diana, interpretada por Gal Gadot, para o público que vai muito além dos fãs e apreciadores de histórias em quadrinhos. Temos aqui uma legítima história de origem. E uma das mais bem contadas de todos os filmes de super-heróis. E a vantagem da Maravilha é que essa é a primeira vez que está sendo contada no cinema, diferente de seus colegas, como Batman e Superman, que já estão indo e vindo nas telonas há muitos anos. O público precisava desse filme!

WONDER WOMAN

O roteiro de Allan Heinberg preocupa-se em contar a história da princesa Diana desde sua infância, mas não pense que é algo maçante ou muito lento. Tem tudo que precisa para que o público entenda e apenas isso. Sem muitas enrolações. E um dos pontos altos é que ele consegue nos conectar com o elenco coadjuvante, necessário para compreendemos o universo da heroína na Ilha do Paraíso. As cenas com a tia Antíope (Robin Wright) são incríveis e nos fazem torcer por elas. É demais!

E no quesito serviço ao empoderamento feminino, é incrível reconhecer a força feminina em tantas mulheres da ilha. E que incrível uma ilha repleta de mulheres cheias de atitude e donas de seus próprios narizes, não é mesmo? Diana tem em quem se inspirar!

O filme dá um salto quando o misterioso piloto Steve Trevor, interpretado brilhantemente por Chris Pine, cai na ilha e traz consigo, toda uma tropa alemã sedente por guerra. A direção da cena em que o exército de Themyscira enfrente os vilões alemães ficou impecável, sendo um dos momentos mais empolgantes da trama. E é após a chegada de Steve que temos os primeiros alívios cômicos da trama. Steve é o primeiro homem que aparece na vida de Diana e é até ingenuamente engraçado ela se surpreender com ele (e sua genitália, hahaha).

Quando Diana conhece Steve e eles começam a desenvolver uma relação, percebemos então uma linha tênue entre emoção e naturalidade no roteiro de Heinberg. Diana não está disposta a ter um relacionamento com Steve, mas acredita que isso possa ser sua ligação com o mundo dos homens e uma ponte de conhecimentos que ela ainda não tem do que é viver no mundo fora da ilha. Naturalidade é a palavra-chave dessa relação muito bem construída. Você torce para que eles fiquem bem, não que eles fiquem juntos. Outro adendo ao movimento feminista é a forma como Diana se posiciona em relação a Steve. Quem disse que ela precisa obedecer suas ordens assim como todas as mulheres daquela época? Diana é autossuficiente, o que é incrível!

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Outro ponto que merece destaque é o elenco de apoio quando Diana se depara com o mundo real. O mundo que ela acredita está sob o comando de Ares, o Deus da Guerra. Todos os personagens vão se encaixando de forma natural e você se conecta com suas personalidades. Etta Candy representa para Diana as mulheres no mundo dos homens e como todos estão errados em tratá-las dessa forma (Outro ponto importante para o movimento feminista). O time liderado por Steve, formado pelo árabe Sameer, pelo escocês Charlie e pelo nativo-americano Chefe, dão um tom mais leve para a trama e ajudam a heroína a conhecer mais os homens.

Quando Diana começa a perceber o quanto o mundo real é muito pior do que ela imaginava e o quanto os homens não a merecem, temos um dos momentos mais importantes do filme. Sua ira é perceptível. Ela não consegue compreender como a sociedade consegue ser tão cruel, até mesmo as crianças.

E diante disso, os vilões que a história apresentam ficam totalmente em segundo plano. Até temos bons momentos com a Doutora Veneno e o General Ludendorff, mas nada que consiga se sobressair do contexto geral da heroína. Os momentos finais são grandiosos, mas todos os tiros, porradas e bombas não superam o que a Mulher-Maravilha tem de mais valioso: sua fé na humanidade e no amor ao próximo, o que é muito importante do que qualquer embate com qualquer supervilão.

Apesar de alguns tropeços, principalmente no modo DC Comics de finalizar seus filmes, temos aqui o melhor do universo até então. Uma esperança para o estúdio e também um serviço muito importante para a inclusão de gênero no cinema.

Mulher-Maravilha, tu és foda, mulher!