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O que acontece quando o estilo literário sombrio e fantasioso de Ransom Riggs se encontra com as ideias visionárias e, de certa forma, excêntricas de Tim Burton?

Um dos diretores mais aclamados de Hollywood ganhou a missão de levar “O Lar das Crianças Peculiares” para as telonas, brincando dentro da sua zona de conforto com um certo ar de renovação. Mas o que podemos esperar desse encontro?

A história acompanha Jacob (que ganha força ao ser interpretado por Asa Butterfield, um dos grandes destaques da nova geração do cinema), que descobre, por meio de pistas deixadas pelo avô (Terence Stamp) falecido, um mistério de sua família, que apesar de parecer bizarro e muito improvável, envolve magia e tempos diferentes. Ele conhece então o Lar das Crianças Peculiares da Sra. Peregrine (Eva Green). Cada qual com sua “peculiaridade” (eles têm habilidades especiais como flutuar, abelhas saindo da boca e a superforça), aprende a conviver com as diferenças dessas crianças presas a um longo passado, o que acaba sendo uma metáfora às diferenças de nossa sociedade.

Um dos pontos positivos do filme é a experiência “freak show” que o diretor sabe fazer como ninguém. Só que diferente do que estamos acostumados, todas as criaturas bizarras e “mágicas” pertencem a uma mitologia criada por Riggs (que diga-se de passagem: é muito bem construída em três livros) e não são criações propriamente ditas da cabecinha de Burton. Sem tantos efeitos visuais como estamos acostumados a ver nas histórias do diretor, temos aqui uma mistura de imagens antigas com personagens bizarros, cheio de características próprias.

Burton é conhecido pelo lado gótico, mas como estamos falando de uma adaptação, precisou trabalhar dentro de um mundo já existente, mas claro, sem deixar de dar o seu toque criativo e original. Outro ponto positivo encontrado na trama é a fotografia de tirar o fôlego. Os cenários são os mais diversos possíveis, como a tropical Flórida e a fria e cinzenta Cairnholm. Uma característica bem trabalhada na trama é a cor cinza para representar o mundo real e o tom mais colorido para mostrar Jacob dentro da fenda (dentro do mundo criado especialmente para os peculiares).

O elenco também é de encher os olhos! Samuel L. Jackson interpreta um vilão divertido, excêntrico e mais engraçado do que propriamente aterrorizante. Talvez fosse essa a intenção do diretor e de Jackson ao construir o personagem. Eva Green rouba todas as cenas! Que mulher, meus amigos. Ela é sempre fantástica assim? Sempre! Sua Peregrine é misteriosa, forte e ao mesmo tempo amável. Não deu vontade de ser um de seus peculiares? Asa Butterfield, como comentei no início do texto, está incrível! Não dava para ser menos. O garoto é bom, e é bom de verdade. Ele se encaixou direitinho no papel de Jacob.

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Os peculiares Ella Purnell (Emma), Finlay McMillan (Enoch), Lauren McCrostie (Olive) e Pixie Davies (Bronwyn) também roubam a cena.

Diferente da fotografia e do elenco de primeira, o roteiro de Jane Goldman é, de certa forma, muito raso, não se aprofundando muito nos relacionamentos dos personagens. As crianças peculiares são carismáticas (os atores são bons e conseguem isso apenas com uma rápida introdução), mas não criam muitas conexões com o público. Jacob rouba toda a cena e ficamos por isso mesmo. Peregrine certamente merecia mais atenção.

Com uma certa limitação do roteiro e um desempenho mediano de Tim Burton na hora de dar vida à magia criada por Riggs, “O Lar das Crianças Peculiares” se limita a um filme com bons efeitos especiais e nada muito mais inspirado do que estamos acostumados. Um filme divertido para toda a família.