mulher-maravilha-e-grandioso-e-feminista-do-jeito-que-precisavamos

No início dos anos 40, os quadrinhos eram protagonizados por personagens masculinos e não havia representatividade feminina nas histórias que chegavam às casas dos leitores. O Superman, o maior de todos os super-heróis, foi por muitos anos a figura mais lembrada entre jovens e adultos. Mas em quem jovens meninas poderiam se identificar no meio de tantas personagens homens e caricatos?

Durante as décadas de 30 e 40, as mulheres conquistaram novos direitos, entre eles, o direito do voto e a participação no mercado de trabalho, contribuindo, assim, para o enfraquecimento da ideologia de hierarquização dos papéis sexuais. Foi nesse período então que a Mulher-Maravilha fez sua primeira aparição na revista “All Star Comics Nº 8”, lançada em dezembro de 1941 pela All-American Publications (DC Comics), nos Estados Unidos.

O criador, William Moulton Marston, em uma entrevista ao jornal New York The Sun, caracterizou a super-heroína como uma “propaganda psicológica” para o tipo de mulher que ele acreditava que poderia governar o mundo. Para William, as mulheres eram mais honestas que os homens e por isso defendia seu crescimento na sociedade, tendo então a ideia de criar a personagem.

Impressionantes 76 anos depois, a personagem – que representou uma quebra de paradigmas para a história da Cultura Pop ao incluir nas HQs uma mulher como super-heroína – repetiu o mesmo feito nos cinemas ao estrelar seu primeiro filme em live-action.

Não que as mulheres não tenham conquistado direitos ao longo de tantas décadas. Pelo contrário, foram muitas conquistas. Mas, mesmo com o passar dos anos, a luta feminista está longe de chegar ao fim e a tão sonhada igualdade entre os gêneros ainda não existe. O empoderamento feminino ainda é quase um tabu e as produções de Hollywood ainda temem mulheres como protagonistas (o que é perceptível ao nos darmos conta que só agora, depois de 76 anos, a Mulher-Maravilha tenha um filme solo para chamar de seu).

E uma pergunta que todos estão se fazendo é: “Mulher-Maravilha” é um filme feminista? Sim, é um filme feminista! E esse é um dos motivos que fazem dessa produção tão importante para a história atual da Cultura Pop. Diana tem uma personalidade marcante e é livre para tomar suas próprias decisões. O roteiro também deixa bem claro sua intenção ao fazer questionamentos simples e pertinentes, como “Por que uma mulher não pode entrar no parlamento?”, ou “Por que uma secretária precisa fazer tudo para o seu chefe como se fosse uma escrava?”.

Neste ponto, temos um filme realmente empoderador, assim como a personagem.

Muitas pessoas estavam com um pé atrás em relação ao longa, principalmente por ele carregar nas costas a difícil missão de recuperar o prestígio e a fé no Universo DC dos cinemas. Mas a boa notícia é que ele conseguiu cumprir muito bem seu papel, dando esperança aos fãs de que dias melhores estão por vir – pelo menos para o time da Liga da Justiça, né?

Agora que contextualizei a história da Mulher-Maravilha e o quanto ela é importante para a atual fase da nossa sociedade, vamos falar sobre o filme e o seu impacto no cinema.

Cuidado, tem spoilers leves!

A diretora Patty Jenkins aceitou a difícil missão (sendo que ela já tinha se oferecido para dirigir o filme em 2003) de contar a história de origem da personagem, apresentando Diana, interpretada por Gal Gadot, para o público que vai muito além dos fãs e apreciadores de histórias em quadrinhos. Temos aqui uma legítima história de origem. E uma das mais bem contadas de todos os filmes de super-heróis. E a vantagem da Maravilha é que essa é a primeira vez que está sendo contada no cinema, diferente de seus colegas, como Batman e Superman, que já estão indo e vindo nas telonas há muitos anos. O público precisava desse filme!

WONDER WOMAN

O roteiro de Allan Heinberg preocupa-se em contar a história da princesa Diana desde sua infância, mas não pense que é algo maçante ou muito lento. Tem tudo que precisa para que o público entenda e apenas isso. Sem muitas enrolações. E um dos pontos altos é que ele consegue nos conectar com o elenco coadjuvante, necessário para compreendemos o universo da heroína na Ilha do Paraíso. As cenas com a tia Antíope (Robin Wright) são incríveis e nos fazem torcer por elas. É demais!

E no quesito serviço ao empoderamento feminino, é incrível reconhecer a força feminina em tantas mulheres da ilha. E que incrível uma ilha repleta de mulheres cheias de atitude e donas de seus próprios narizes, não é mesmo? Diana tem em quem se inspirar!

O filme dá um salto quando o misterioso piloto Steve Trevor, interpretado brilhantemente por Chris Pine, cai na ilha e traz consigo, toda uma tropa alemã sedente por guerra. A direção da cena em que o exército de Themyscira enfrente os vilões alemães ficou impecável, sendo um dos momentos mais empolgantes da trama. E é após a chegada de Steve que temos os primeiros alívios cômicos da trama. Steve é o primeiro homem que aparece na vida de Diana e é até ingenuamente engraçado ela se surpreender com ele (e sua genitália, hahaha).

Quando Diana conhece Steve e eles começam a desenvolver uma relação, percebemos então uma linha tênue entre emoção e naturalidade no roteiro de Heinberg. Diana não está disposta a ter um relacionamento com Steve, mas acredita que isso possa ser sua ligação com o mundo dos homens e uma ponte de conhecimentos que ela ainda não tem do que é viver no mundo fora da ilha. Naturalidade é a palavra-chave dessa relação muito bem construída. Você torce para que eles fiquem bem, não que eles fiquem juntos. Outro adendo ao movimento feminista é a forma como Diana se posiciona em relação a Steve. Quem disse que ela precisa obedecer suas ordens assim como todas as mulheres daquela época? Diana é autossuficiente, o que é incrível!

mulher-maravilha-e-grandioso-e-feminista-do-jeito-que-precisavamos2

Outro ponto que merece destaque é o elenco de apoio quando Diana se depara com o mundo real. O mundo que ela acredita está sob o comando de Ares, o Deus da Guerra. Todos os personagens vão se encaixando de forma natural e você se conecta com suas personalidades. Etta Candy representa para Diana as mulheres no mundo dos homens e como todos estão errados em tratá-las dessa forma (Outro ponto importante para o movimento feminista). O time liderado por Steve, formado pelo árabe Sameer, pelo escocês Charlie e pelo nativo-americano Chefe, dão um tom mais leve para a trama e ajudam a heroína a conhecer mais os homens.

Quando Diana começa a perceber o quanto o mundo real é muito pior do que ela imaginava e o quanto os homens não a merecem, temos um dos momentos mais importantes do filme. Sua ira é perceptível. Ela não consegue compreender como a sociedade consegue ser tão cruel, até mesmo as crianças.

E diante disso, os vilões que a história apresentam ficam totalmente em segundo plano. Até temos bons momentos com a Doutora Veneno e o General Ludendorff, mas nada que consiga se sobressair do contexto geral da heroína. Os momentos finais são grandiosos, mas todos os tiros, porradas e bombas não superam o que a Mulher-Maravilha tem de mais valioso: sua fé na humanidade e no amor ao próximo, o que é muito importante do que qualquer embate com qualquer supervilão.

Apesar de alguns tropeços, principalmente no modo DC Comics de finalizar seus filmes, temos aqui o melhor do universo até então. Uma esperança para o estúdio e também um serviço muito importante para a inclusão de gênero no cinema.

Mulher-Maravilha, tu és foda, mulher!

Postado por Thiago Moreira

Editor-Chefe do Papo de Blogueiro. Viciado em cinema, televisão, música e tudo relacionado à cultura POP. Estuda Publicidade e Propaganda nas horas vagas.